Dupla portuguesa assume candidatura às medalhas nos Jogos Olímpicos de Pequim, depois de ter juntado ontem a prata no Mundial ao ouro no Europeu do ano passado.
Entrevista de Hugo Daniel Sousa, Público

Álvaro Marinho (15/03/1976) e Miguel Nunes (11/08/1976) têm a mesma idade (31 anos) e um percurso muito similar no mundo da vela. Ambos começaram a velejar muito cedo, por influência familiar, e formam desde 1997 uma das melhores duplas europeias na classe 470. Álvaro Marinho é o leme, Miguel Nunes o proa, e o primeiro grande título surgiu logo em 1998, uma medalha de bronze no Campeonato da Europa. Em 2000, chegaram pela primeira vez aos Jogos Olímpicos, alcançando um quinto lugar em Sydney, ainda melhor do que o sétimo que conseguiriam depois nos Jogos de Atenas 2004. A dupla portuguesa, que representa o Clube de Vela do Barreiro, coleccionou durante quase uma década lugares à porta do pódio, com vários quartos e quintos lugares em Europeus e Mundiais. A sorte de Marinho e Nunes começou a mudar em Junho passado, em Salonica (Grécia), onde conquistaram o primeiro título europeu. Um mês mais tarde, nos Mundiais de classes olímpicas em Cascais, ficaram outra vez à porta do pódio (4.º), mas regressaram agora às medalhas, a sete meses dos Jogos Olímpicos. Um bom sinal para Pequim 2008.
Álvaro Marinho e Miguel Nunes conquistaram ontem a medalha de prata no Campeonato do Mundo de vela na classe 470, que decorreu em Melbourne. A dupla portuguesa chegou ao último dia no primeiro lugar, mas na decisiva regata das medalhas foi terceira classificada, caindo para o segundo posto na classificação, atrás dos ingleses Nic Asher e Elliot Willis e à frente dos israelitas Gideon Kliger e Udi Gal. A partir da Austrália, por telefone, Álvaro Marinho admitiu ao PÚBLICO que a medalha de prata é “um resultado óptimo” que abre grandes perspectivas para os Jogos Olímpicos deste ano em Pequim, onde a dupla do Barreiro assumirá a luta pelas medalhas.
— Entraram para a regata das medalhas no primeiro lugar, mas acabaram por ficar em segundo. O que aconteceu?
— Entrámos à frente, mas tínhamos dois barcos, os ingleses e os israelitas, só a três pontos. Como na medal race [última regata só com os dez melhores] os pontos contam a dobrar, não podia haver nenhum barco entre nós e esses adversários. A estratégia era ganhar a medal race, embora o segundo lugar chegasse para o título, mas ficámos em terceiro, a menos de três metros do barco francês. Mesmo assim chegámos a estar no nono lugar durante a medal race, o que nos colocava no quarto posto na geral. O resultado é óptimo e estamos muito satisfeitos. Acontece que fica algum sabor amargo porque estivemos na liderança e ainda por cima perdemos para os ingleses, que não completaram três regatas por causa de um incidente, mas deram-lhes reparação [foram reintegrados] após um protesto.
— Depois de terem sido campeões da Europa e do quarto lugar nos Mundiais de Cascais, este é um resultado importante para os Jogos Olímpicos?
— Sim, é um excelente resultado antes dos Jogos Olímpicos, que são o objectivo maior. Estamos satisfeitos pelo trabalho que temos feito em condições climatéricas com pouco vento, que supostamente é o que iremos encontrar em Pequim. Ao contrário do esperado, este campeonato não teve muito vento. Não só pelo resultado, mas também pela forma como velejámos, foi o melhor campeonato que já fizemos na nossa vida. É a nossa primeira medalha nos Campeonatos do Mundo. Já tínhamos ficado duas vezes em quarto e quatro vezes em quinto.
Esta medalha compensa a desilusão que sofreram em Cascais 2007?
Preferia ter conquistado esta medalha de prata em Portugal, onde estava mais perto das pessoas que nos apoiam.
— Este título é mais importante do que o Campeonato da Europa?
— Sim. Neste momento, somos campeões da Europa e vice-
-campeões do mundo em título, mas este é mais importante, apesar de os campeonatos da Europa serem abertos e de lá terem estado as melhores duplas. Foram regatas diferentes, mas obviamente um Campeonato do Mundo tem mais peso. Estamos no melhor momento da nossa carreira.
— Tendo em conta este segundo lugar obtido em condições semelhantes às de Pequim, podemos dizer que são candidatos às medalhas nos Jogos Olímpicos?
— Traçamos sempre objectivos realistas. Temos trabalhado bem com as condições que são esperadas em Pequim. Ganhámos o Campeonato da Europa [na Grécia] com pouco vento, agora ficámos em segundo. Por isso, vamos trabalhar para alcançar medalhas.
— Quem são os vossos principais adversários?
— A classe 470 está muito forte, como se pode ver pelo facto de em cada campeonato ganhar uma dupla diferente. Há vários países que podem ganhar as medalhas: Austrália, Inglaterra, Espanha, Itália, Israel, Argentina. São todos países fortes com as condições que vamos encontrar. Mas sinceramente acho que neste momento somos a dupla mais consistente do mundo a nível de resultados e a que navega melhor com variadas condições. Em Cascais, fomos quartos com vento muito forte, no Europeu ganhámos com vento fraco, agora fomos segundos com vento fraco e médio. Só temos de nos especializar na navegação com pouco vento, para em Pequim integrarmos o lote dos que lutam pelas medalhas.
— Que preparação vão fazer até aos Jogos Olímpicos?
— Temos um período de treino em Fevereiro e até meados de Março. Depois iniciamos a época na Europa, com a participação no troféu Princesa Sofia, e nas semanas olímpicas francesa [Abril] e holandesa [Maio]. Em Junho temos o Campeonato da Europa e no final de Junho vamos fazer um treino específico na China, precisamente no local das regatas olímpicas, em Qingdao.
— Este resultado é importante para o futuro da vela em Portugal?
— Infelizmente em Portugal, na nossa classe e noutras, a situação não está muito famosa. Se calhar a Federação Portuguesa de Vela e o Comité Olímpico Português têm de rever a forma como apoiam a vela. Tirando os velejadores que estão actualmente na equipa olímpica, não se prevê um grande futuro. Não temos competição em Portugal suficiente para treinar e temos sempre de recorrer a duplas estrangeiras, nem sempre as que mais gostamos, para manter o nível alto. Trabalhar sozinhos em Portugal é muito duro, razão que ainda valoriza mais as nossas vitórias.
Entrevista de Hugo Daniel Sousa, Público, 30.1.08
Arquivado em: Regatas | Tagged: Álvaro Marinho, campeões eurupeus, classe 470, Jogos Olimpicos, Miguel Nunes, mundial, Pequim






